Currículo de UX designer em 2026: o que colocar, o que cortar e os erros que vejo em 90% dos CVs

Resposta rápida: Já analisei mais de 2000 currículos de designers em 12 anos de carreira. Os três erros mais comuns são: links quebrados, PDFs exportados direto do Figma sem estrutura de ATS, e design colorido demais que atrapalha o skimming. O que realmente importa: link do portfólio visível, clareza sobre o que você fez (não o time), e idioma que combina com a vaga. Currículo bom é lido em 30 segundos, não em 5 minutos.

Apparicio Junior

Head of Product Design

TL;DR

  • Recrutador olha seu CV por 30 segundos, não 5 minutos

  • Link do portfólio precisa estar visível e funcional, sempre

  • ATS não lê PDF exportado do Figma direito, use Word ou Google Docs

  • Descreva o que você fez, não o que o seu time fez

  • Inglês para vagas internacionais, português para vagas Brasil

  • CV cheio de cor, ícone e imagem só atrapalha a leitura

  • Simplicidade vence complexidade em 100% dos casos

Quem está escrevendo isso

Nos últimos 12 anos analisei mais de 2000 currículos de designers. Alunos da Design Circuit pedindo review, candidatos em processos seletivos que liderei em empresas no Brasil e no Reino Unido, mentorias individuais. Cada um desses currículos me ensinou algo sobre o que funciona e o que não funciona.

A diferença entre um CV que gera entrevista e um que vai pra pilha do "não" quase nunca é sobre o candidato ser melhor ou pior. É sobre o CV conseguir comunicar o candidato no tempo que o recrutador tem. E esse tempo é curto.

Este artigo é a destilação do que eu aprendi olhando essa quantidade de CVs. Sem teoria, sem genérico. Só o que eu realmente procuro, e o que realmente me faz descartar.

Como um recrutador realmente lê seu CV

Primeiro, vamos derrubar uma crença comum. Seu CV não é lido linha por linha. Nunca foi.

Quando eu abro um currículo, meus olhos fazem um padrão chamado skimming. Em 20 a 30 segundos, eu preciso conseguir responder três perguntas:

  1. Essa pessoa tem experiência relevante pra vaga?

  2. Essa pessoa faz o que eu preciso?

  3. Vale a pena investir 20 minutos conversando com ela?

Se seu CV não me dá essas três respostas rápido, eu passo pro próximo. Não porque você é ruim. Porque eu tenho mais 50 CVs na pilha.

Tudo que ajuda o skimming é bom. Tudo que atrapalha é descarte.

Os 3 erros que eu vejo em 90% dos CVs

Depois de 2000 CVs, esses três erros se repetem quase sempre. Cada um deles sozinho já coloca você no final da fila.

Erro 1: Links quebrados

Esse é o mais frustrante porque é o mais fácil de evitar.

Você coloca o link do seu portfólio no CV. Eu clico. Dá 404. Domínio expirou. Behance privado. Dribbble com projeto escondido. LinkedIn com configuração errada.

Resultado: eu não consigo ver seu trabalho. E se eu não consigo ver seu trabalho, eu não consigo te chamar pra entrevista. Não importa o quanto seu CV parece bom no texto.

Como resolver: antes de enviar qualquer CV, clica em todos os links. Todos. Num navegador anônimo. Se algum link te pedir login, ou der erro, ou mostrar conteúdo errado, corrige antes de enviar.

Faz isso uma vez por mês, mesmo que você não esteja se candidatando ativamente. Link morre sozinho.

Erro 2: PDF exportado direto do Figma sem pensar em ATS

Esse aqui mata muito designer talentoso, e o designer nem fica sabendo.

ATS é Applicant Tracking System, o sistema que a maioria das empresas usa pra filtrar currículos antes de um humano ver. Gupy, Greenhouse, Lever, Workable, todos são ATS. Eles leem seu PDF automaticamente e indexam as informações.

Problema: PDF exportado direto do Figma é basicamente uma imagem com texto por cima, sem estrutura semântica. O ATS abre, tenta ler, e vê bagunça. Nome em cima da foto, data em outra camada, cargo numa terceira. Resultado: o sistema marca seu CV como "dados incompletos" e você é filtrado antes de qualquer humano olhar.

Já aconteceu com aluno meu que tinha portfólio excelente. Durante meses, aplicava e não tinha resposta de lugar nenhum. Descobrimos que era o PDF do Figma. Trocou pra Word, mesma semana recebeu três respostas.

Como resolver: faz seu CV em Word, Google Docs, ou Pages. Exporta em PDF a partir dali. Estrutura simples, texto real. ATS consegue ler. Humano também.

Se você quer mostrar que sabe fazer design bonito, o lugar pra isso é o portfólio. Não o CV.

Erro 3: CV colorido demais, com ícone e imagem

Esse parece contra-intuitivo pra designer, mas é verdade.

Designer júnior quer mostrar que é designer. Então enche o CV de cor, ícone, sidebar colorida, barra de progresso mostrando "nível de Figma: 80%", foto 3x4 no canto. Parece portfólio em miniatura.

Isso não funciona. Por duas razões:

Primeiro, atrapalha o skimming. Cor e ícone competem com a informação pela atenção do olho. Eu quero ver onde você trabalhou, por quanto tempo, e o que você fez. Não quero ver quantos círculos preenchidos você deu pra "Adobe XD".

Segundo, mostra pouca maturidade de design. Designer sênior sabe que menos é mais. CV super decorado parece portfólio de estudante de publicidade dos anos 2010.

Como resolver: preto no branco, uma fonte sem serifa, hierarquia clara por tamanho e peso, sem cor exceto talvez uma cor de destaque pro seu nome. Skimming perfeito.

Dieter Rams, um dos designers mais importantes do século 20, tem um princípio que se aplica perfeitamente aqui: "bom design é o mínimo design possível". Um CV que segue isso já te coloca na frente de 90% dos candidatos.

O que eu realmente procuro (e a maioria esquece)

Agora o outro lado. O que faz eu parar e prestar atenção.

1. Link do portfólio visível e funcional

Quando o recrutador recebe seu CV vindo do ATS, às vezes o sistema não envia o link do portfólio separado. Ele só manda o PDF. Se seu CV não tem o link do portfólio visível, eu não tenho como ver seu trabalho. E designer sem portfólio visível não passa pra entrevista.

Regra: link do portfólio em dois lugares. No topo, junto do nome e contato. E na descrição de cada vaga, linkando pro case específico daquela vaga, se existir.

URL limpa, memorizável, e que funciona. Se tiver domínio próprio (seudominio.com/portfolio), melhor. Se for Behance ou outro, ok, mas garante que está público.

2. Clareza absoluta sobre o que VOCÊ fez

Este é o ponto mais importante e o mais violado.

Leio constantemente coisas como:

"Como parte do time de produto, implementamos uma nova jornada de checkout que aumentou conversão em 15%."

Parabéns pro time. Mas eu não estou contratando o seu time. Estou contratando você. O que você fez?

  • Você desenhou as telas?

  • Você conduziu a pesquisa?

  • Você facilitou os workshops?

  • Você apresentou pra liderança?

  • Você mediu o impacto depois?

Cada uma dessas respostas é um trabalho diferente. E eu preciso saber qual foi o seu.

Regra: começa cada bullet com um verbo que descreve sua ação específica. "Conduzi pesquisa com 15 usuários", "Desenhei e testei 4 variações da jornada", "Facilitei workshops com product e engenharia", "Apresentei recomendações para C-level".

Se você não sabe qual parte foi sua, é porque provavelmente você só executou telas. E tudo bem, mas aí você escreve isso com clareza, em vez de fingir que liderou estratégia.

Honestidade sobre escopo é muito mais valiosa do que inflação. Em entrevista, eu vou descobrir a verdade de qualquer jeito.

3. Números quando existem

Se você tem dados de impacto real, usa. Não precisa ser percentual de conversão astronômico. Qualquer coisa concreta funciona:

  • Número de usuários entrevistados

  • Tamanho do time com quem você trabalhou

  • Duração do projeto

  • Quantidade de variações testadas

  • Impacto em métrica X

Se você não tem números, não inventa. Mas também não deixa de contar sobre o projeto só porque faltam. Descreve o desafio, a decisão, o resultado qualitativo.

4. Foco, não lista de tudo que você já fez

Designer júnior quer mostrar que sabe de tudo. Lista Figma, Sketch, Adobe XD, Photoshop, Illustrator, After Effects, Framer, Webflow, HTML, CSS, JavaScript, Python, UX Research, UI Design, Design Thinking, Scrum, Agile, User Testing, Card Sorting.

Isso não impressiona. Parece desespero.

Seleciona. 5-7 habilidades mais relevantes pra vaga. De preferência as que você domina de verdade. Se você põe algo no CV, em entrevista você precisa saber defender.

Eu já descartei candidato que listou "liderança de time de 20 pessoas" e na entrevista admitiu que nunca liderou ninguém. Custou a vaga, não por falta de experiência, mas por falta de honestidade.

Inglês ou português?

Pergunta frequente, resposta simples:

  • Vaga brasileira: português

  • Vaga internacional: inglês

  • Vaga de empresa internacional com operação no Brasil: inglês

E isso vale pro portfólio também. Se sua vaga é no Brasil, teu portfólio em inglês não é "diferencial internacional". É uma barreira desnecessária pra quem vai te contratar.

Versão curta da regra: escreva no idioma da pessoa que vai te entrevistar.

Exceção importante: se você quer vagas em ambos os mercados, tem duas opções.

Opção A: dois CVs, um em cada idioma. Aplica de acordo com a vaga. Manter os dois atualizados dá mais trabalho, mas funciona.

Opção B: um CV em inglês, aplica só pra vagas que aceitam inglês. Desiste de parte do mercado brasileiro, mas foca em quem realmente vai contratar em inglês.

Não faça CV "bilíngue" com duas colunas ou com português e inglês misturados. É confuso e mal lido pelos dois lados.

A estrutura de CV que funciona

Depois de olhar 2000 CVs, essa é a estrutura que eu recomendo pros alunos DC:

Topo:

  • Nome (grande, visível)

  • Cargo que você busca (ou que mais te descreve hoje)

  • Email, LinkedIn, portfolio, cidade

Resumo (opcional, só se for bom):

  • 2-3 frases sobre quem você é profissionalmente

  • Não fala "procuro oportunidade de crescimento", isso todo mundo procura

  • Fala o que você faz bem e o tipo de problema que você resolve

Experiência:

  • Empresa, cargo, período

  • 3-5 bullets por empresa

  • Cada bullet começa com verbo de ação

  • Inclui link pro case no portfólio quando tiver

Educação:

  • Só se for relevante

  • Universidade ok, mas não precisa de notas

  • Cursos curtos relevantes (inclui Design Circuit se for o caso)

Habilidades:

  • 5-7 máximo

  • Só o que você domina

  • Sem barra de progresso

Opcional:

  • Idiomas (se relevante pra vaga)

  • Certificações (só se reconhecidas)

Fim. Uma página, duas no máximo se você tem 10+ anos.

O que eu NÃO quero ver no seu CV

Lista rápida:

  • Foto 3x4. Depois de pandemia, isso ficou ainda mais desatualizado. Em países como Reino Unido e Estados Unidos, é proibido em muitas empresas.

  • Data de nascimento ou idade. Não importa e pode causar viés.

  • Estado civil. Ninguém quer saber.

  • Nome dos pais. Nem sei por que ainda aparece.

  • Endereço completo. Cidade e estado bastam.

  • CPF, RG. Nunca. Risco de dados.

  • "Objetivo profissional" genérico. Especialmente "busco crescimento em empresa sólida". Todo mundo busca. Não conta nada sobre você.

  • Hobbies, a menos que sejam relevantes. Se você coleciona câmeras de filme 35mm e isso se conecta com sua abordagem pro design, ok. Se é "gosto de viajar e ler", pula.

  • Referências disponíveis sob consulta. Isso já se assume. Se alguém quiser, pede.

Um checklist antes de mandar

Antes de clicar em enviar, confere:

  1. Cliquei em todos os links e todos funcionam?

  2. É Word/Google Docs, não Figma PDF?

  3. O recrutador consegue achar o link do portfólio em 3 segundos?

  4. Cada bullet começa com verbo descrevendo o que EU fiz?

  5. Tem número onde faz sentido ter?

  6. Máximo 5-7 habilidades?

  7. Sem foto, CPF, data de nascimento?

  8. Idioma combina com a vaga?

  9. Uma página (duas no máximo)?

  10. Alguém que não é designer leu e entendeu sua experiência?

Se tudo passou, manda. Boa sorte.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva pra fazer um bom CV?

Primeira versão, 4-6 horas. Revisão a cada 6 meses, 1-2 horas. É menos do que parece, mas mais do que a maioria dos candidatos investe.

Devo ter um CV pra cada vaga?

Pros traços gerais, não. Pra customização de headline e resumo, sim. Muda o cargo que você busca e o resumo de 2-3 frases pra refletir o que a vaga pede. O resto do CV permanece.

E se eu não tiver experiência ainda?

Foca em projetos. Desafios que você fez por conta própria, cursos com entregas reais (como a Design Circuit, que tem projetos avaliados), freelas, trabalho voluntário. Qualquer trabalho real conta mais do que curso concluído.

Posso usar modelo pronto da internet?

Pode, mas customiza. CV com a cara de template é ruim. A estrutura vale, mas tipografia, hierarquia e conteúdo precisam ser seus.

Preciso de portfolio completo pra conseguir primeiro emprego?

Sim. Mesmo que sejam 2-3 cases de projetos seus ou de curso. Sem portfolio, não passa pra entrevista. É mais importante do que o CV em si.

Devo incluir trabalhos de estudante?

Se você é júnior, sim, absolutamente. Trabalho de curso em escola estruturada conta como experiência prática. Se você já tem 3+ anos de mercado, aí tira pra dar espaço pros trabalhos profissionais.

LinkedIn é mais importante que CV?

São complementares. Recrutador costuma olhar os dois. LinkedIn pra background completo, CV pra resumo da candidatura específica. Mantém os dois consistentes e atualizados.

Quanto o design do CV conta pra designer?

Conta menos do que você pensa. Designer sênior tem CV simples e limpo. Se você faz um CV super elaborado querendo mostrar design, passa impressão errada. Teu portfolio mostra o design. Teu CV mostra tua clareza.

Sobre o autor

Apparicio Junior é Head of Product Design, fundador da Design Circuit e educador em design há mais de 7 anos. Formou 4.500+ designers em 30+ países. Trabalha com design de produto há mais de 12 anos no Brasil e no Reino Unido. Fala sobre design, carreira e IA no canal DC 2.0 no YouTube e na Design Circuit.

Este artigo representa opinião pessoal do autor como educador e fundador da Design Circuit. Não representa posição de empregadores ou clientes.

Última atualização: abril de 2026.

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